Instituto Histórico IMPHIC - Betim

"Sapire ut protegas, Protegere ut conserues"

Localização: Rua Treze de Maio, s/nº, Bairro Novo Amazonas – Betim – MG.

Exibir mapa ampliado http://www.funarbe.xpg.com.br/capela_sao_sebastiao.htm

Existem duas versões para a existência da Igreja de São Sebastião. Os moradores mais velhos, como o Sr. Antônio Nonato Martins, D. Dina e Vovó Dalvina afirmam que sua construção data de 60 a 70 anos atrás.
A terra era comum e a sua divisão em glebas ocorreu depois que a construção estava bem adiantada, sendo que a propriedade do local onde a Igreja se localizava foi para Manoel Pereira de Morais, padrinho de Joaquim Reginaldo, de quem falaremos mais adiante, que teria sido o seu construtor. segundo informação de D. Dina.
O Sr. Antônio Nonato Martins trabalhou na construção, erigindo o telhado e fazendo o reboque; segundo ele, Juscelino Martins levantou a frente e Antônio Sabino fez o detalhe. Ainda segundo o Sr. Antônio Nonato, as obras ficaram paradas e Joaquim Soares Diniz, conhecido como Joaquim Reginaldo, queria continuar, mas as suas posses não davam.
Aqui, temos a possibilidade da segunda versão que atribui a Joaquim Reginaldo a posse do terreno e a construção da Igreja por volta de 1940. O Sr. Antônio Faria, genro de Joaquim Reginaldo, informa que este construiu a capela como pagamento de uma promessa que teria sido feita a São Sebastião, caso o seu filho Osvaldo Oliveira da Silva, conhecido como Zati, voltasse vivo da Segunda Guerra Mundial.
Corroborando esta versão, temos os depoimentos do já citado Antônio Faria, D. Margarida (filha de Joaquim Reginaldo) e Osvaldo Duarte que também participou da construção.

Até carreguei água para a construção
(D. Margarida)

O fato é que, quando da divisão da Fazenda Batatal em 1943, Joaquim Soares Diniz aparece como proprietário de terras que faziam divisa com o quinhão da Capela.

Um terreno rural com a área de 5.342 ares (...) situado na Fazenda do Batatal (...), adquirido por Joaquim Soares Diniz,conforme transcrição número 1979, no livro 3-B, à fls. 7, no Registro Imobiliário de Betim do quinhão que recebeu como condomínio da divisão da Fazenda do Batatal processada nesta comarca no Cartório do 1º Ofício julgada por sentença de 29 de abril de 1943, com as seguintes divisas e confrontações (...) Fazenda do Sitio até o marco quinhão da Capela, cravado próximo a estrada (...). Documento 2., p. 02, continuação do Reg. 8:588, fls. 151 do Livro 3-J.

Tendo sido terminada a obra, a Igreja foi inaugurada sem realização de missa, porque, segundo moradores antigos,não havia sido realizada a benzição da pedra fundamental, o que teria provocado o seu fechamento por volta de vinte anos.
O Sr. Antônio Faria informa que por volta de 1956, D. João Resende Costa autorizou a normalização da Capela, quando, então, ela foi reformada, tendo o Sr. Luiz realizado o acréscimo da parte de trás, em 1958.
Ali, eram realizadas as festas do padroeiro São Sebastião, no dia 20 de janeiro, com prendas, leilões e muita alegria, o que caracteriza o catolicismo popular no interior do Brasil. Havia, também, as comemorações do mês de Maria, com reza do terço e coroação, as festas da Semana Santa com a procissão de Ramos e a Missa do Galo, além de casamentos, batizados e Folia de Reis.
O depoimento de vários informantes mostra a existência de uma relação muito estreita entre a Igreja de São Sebastião e a Igreja de Santo Antônio, tanto que, às vezes, a memória se confunde com o que acontecia em uma Igreja e na outra. Segundo o Sr. Antônio Nonato, quando a capela de Santo Antônio funcionava, a de São Sebastião não funcionava. Ainda segundo o Sr. Antônio, no inicio não eram realizadas celebrações na Igreja de São Sebastião. Fazia-se teatro e brincava-se de Sr. Baratinha no seu interior.
Mas, o que parece marcar a lembrança das pessoas mais atuantes, no momento, em termos da história da Igreja, são as atividades que se desenvolveram a partir do final da década de 70 e sob a influência das CEBs - Comunidades Eclesiais de Base, no sentido da criação de um espírito de comunidade. Além das atividades do apostolado da Oração, que já existiam desde 1963, dos círculos bíblicos, da catequese, da primeira eucaristia, do curso de batismo e da missa que era rezada de quinze em quinze dias, havia o movimento do grupo de jovens com gincanas, participação nas celebrações e um trabalho social, segundo informações de Sebastião Geraldo de Carvalho, conhecido como Tatão. O grupo de jovens SAT - Só o amor Transforma - existe até hoje. Havia também um teatro da Semana Santa, com uma via sacra ao vivo, que implicava um trabalho cooperativo, além de um trabalho de apoio em grupo.
Neste momento, a Igreja fazia parte da paróquia dos Operários de Petrolândia, com padres que realizavam um atendimento rural.
Na década de 80, há um desmembramento da Paróquia e a Igreja de São Sebastião passa a fazer parte da Paróquia Maria Mãe dos Pobres.
Por volta de quatro anos atrás, deixou-se de celebrar a missa na Igreja, pois o espaço tornou-se insuficiente. Foi uma decisão da comunidade, que passou a usar o galpão do centro comunitário, próxima ao local onde será erguida a nova igreja. O altar, o campanário, a harmônica e a imagem de São Sebastião foram transferidos para essa igreja provisória.
A Igreja de São Sebastião estava abandonada por dois anos e, como estava sendo depredada, os moradores resolveram retomá-la com o grupo de jovens que ali se reúne aos domingos às 18:00 horas.
O que a história da Igreja nos demonstra são os referenciais diferenciados que as pessoas possuem de acordo com a sua idade, e em função dos diferentes momentos da forma de participação religiosa possíveis no âmbito da história do catolicismo no Brasil. Assim é que, para os mais antigos, o que se deseja preservar é um tempo que não mais existe, em que a religiosidade se expressava de uma forma popular, na devoção a um santo padroeiro, característica marcante do catolicismo brasileiro em áreas rurais, onde o braço regulador da Igreja Católica não se fazia sentir muito presente.
Por outro lado, ainda para os moradores mais antigos, e de outros bairros, a preservação vincula-se mais à memória e à lembrança de um tempo que passou, referencial este fundamental para a sua vivência atual, numa ligação prenhe de significados entre o passado e o presente.

A Igrejinha é uma lembrança no meu passado quando, indo estudar na capital, passava pela manhã indo e à tarde voltando, e a via linda lá no alto.

A partir da década de 50, com a “normalização” da capela pelo Bispo D. João Rezende Costa, ela passa a ter uma existência de acordo com os preceitos de uma Igreja Católica Apostólica Romana, mais universalista, mesclada às práticas do catolicismo popular. A lembrança dos moradores tem esta data como um marco: é o momento, também, da chegada de novos moradores, cuja lembrança remete a esta época.
Para os chegados mais recentemente, moradores do atual Bairro Amazonas, o referencial maior é a década de 70 e, como já disse, uma atuação nos moldes das CEBs - Comunidades Eclesiais de Base. A Igreja reformulou-se, em um dos seus seguimentos, e o trabalho da criação de um espírito comunitário frutificou, o que leva os moradores atuais a desejarem e buscarem a sua preservação, definindo atividades possíveis para a Igreja restaurada, visando demonstrar não só uma ocupação, como também em uso comunitário, quais sejam: o catecismo; a continuidade das reuniões dos grupos de jovens - que propiciariam o encontro de jovens do Bairro Alvorada e do Bairro Amazonas; a realização das reuniões da Associação de Moradores do Bairro Amazonas; usos estes pensados para evitar a sua depredação, num sentido claro do envolvimento da comunidade com a preservação do bem cultural. Por outro lado, pedem a construção de uma praça com banquinhos e iluminação em frente à Igreja, o que marca um desejo de convivialidade.
Do ponto de vista Oficial, os documentos de cartório atestam a existência de uma preocupação em se resguardar o espaço da Igreja. Um deles diz:

Dentro dos terrenos vendidos ficam reservadas as seguintes áreas: para a igreja: 7.8000 ms. Documento 4, Registro nº 22.904 do livro 3-v fls. 3.

Está no canto, num local do loteamento que não incomoda a ninguém.
(Amélia Gomes da Silva)

Ela ficou no canto, mas está lá, testemunha da passagem do tempo e da interligação entre passado e presente, ligação esta que Betim pós-moderna insiste em preservar.
Finalmente, o pedido para o processo de tombamento e conseqüente preservação, veio da parte de uma Comissão de Preservação criada no âmbito dos moradores do Bairro Amazonas e, como o próprio nome indica, com a finalidade de garantir a preservação da Igreja de São Sebastião.

Aqui é a raiz,
Aqui que começou o Bairro Amazonas,
Queremos guardar a memória para nossos filhos e
nossos netos.

Arantes Neto, em um trabalho sobre a revitalização da Capela de São Miguel Paulista em São Paulo, em 1977 e 1978, conta-nos que no momento em que houve o envolvimento da comunidade na definição e execução das atividades em relação à Capela, a afluência de pessoas ao local era espantosa, acima das expectativas (1984:161).
Mendonça, em trabalho de 1991, sobre a Serra da Barriga em União dos Palmares, Alagoas, local do famoso Quilombo dos Palmares, pergunta se o avanço em termos das conquistas da politica cultural, iniciadas em fins de década de 70, não deve nos levar a considerar as comunidades que fazem uso do bem tombado (Mendonça, 1991:50).

Nunca é demais relembrar Aloísio Magalhães:

A comunidade é a melhor guardiã do seu patrimônio.

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