Instituto Histórico IMPHIC - Betim

"Sapire ut protegas, Protegere ut conserues"

Entrevistado e entrevistador
Cada entrevistado não é entendido como uma mera fonte de “informações” sobre o assunto, mas, sim, como uma pessoa que de alguma maneira vivenciou um pedaço daquela história. Nesse sentido, sua narrativa de vida é, em si mesma, a principal fonte que se quer coletar. É muito importante que o grupo sinta curiosidade e respeito pelo entrevistado. O entrevistado é o autor principal da narrativa. É ele quem deve determinar o ritmo, o estilo e o conteúdo da sua história. No entanto, o sucesso da entrevista depende muito do entrevistador. É importante refletir em grupo a respeito de alguns pontos sobre o papel e a postura do entrevistador:
  • Autoria – A entrevista surge da interação entre entrevistado e entrevistador. Cabe ao entrevistador um papel ativo na produção da narrativa.
  • Respeito – A entrevista é um momento solene, até mesmo sagrado, no qual o entrevistado está eternizando sua história e o entrevistador participa da construção de um documento histórico. É importante preparar um ambiente acolhedor para garantir que o entrevistado se sinta tranqüilo e, acima de tudo, ouvir com atenção a sua história. Quando o entrevistado é idoso, há a tendência a infantilizá-lo, e é muito importante que não se caia nessa tentação.
  • Receptividade – O roteiro é apenas um estímulo. É necessário estar totalmente disponível. Ser curioso, escutar com atenção. As melhores perguntas surgem da própria história que está sendo contada. Se o entrevistado falar sem perguntas, pode seguir sem interrupção.
  • Sabedoria – O entrevistador nunca deve julgar o entrevistado. Exigir atitudes, discutir opiniões ou cobrar verdade e precisão histórica. O objetivo da entrevista é registrar a experiência pessoal que o entrevistado tem dos acontecimentos e não uma verdade absoluta.
  • Humildade – O diálogo é baseado no entrevistado. O entrevistador não deve pressupor que o entrevistado possui os mesmos valores e conceitos que ele.
  • Emoção – O papel do entrevistador é estimular e auxiliar o entrevistado na construção da história que ele quer contar. O entrevistador não é um psicólogo. Não deve procurar subentendidos, não ditos. Mas certamente a emoção faz parte.
  • Ritmo próprio – Cuidado para não interromper a linha de raciocínio do entrevistado, mesmo que pareça que ele esteja saindo fora do tema. Apenas interferir quando for realmente necessário, seja para retomar o fio da meada, seja para ajudá-lo a seguir.
  • Atitude – O corpo, os olhos, os movimentos fazem parte do diálogo e influenciam a construção da narrativa. É necessário estar atento. Cuidado em não demonstrar impaciência ou desinteresse, olhando o relógio, bocejando.
  • Foco – O entrevistador deve priorizar a narrativa, as histórias. Não deve deixar o entrevistado perder-se em comentários e opiniões genéricas.
  • Organização – Todo material e equipamento necessário para a realização da entrevista deve ser ordenado e testado antes dela.

Roteiro da entrevista
Cabe ao entrevistador ajudar o entrevistado na construção de sua narrativa, fazendo perguntas, estimulando seu relato. É importante, portanto, ele se preparar para esse momento, e a elaboração de um roteiro da entrevista ajuda bastante.

Perguntas que ajudam:

  • Descritivas - Recuperam detalhes envolventes. Exemplo: descreva como era a casa de sua infância.
  • De movimento - Ajudam a continuar sua história. Exemplo: o que você fez depois que saiu de casa?
  • Avaliativas - Provocam momentos de refl exão e avaliação. Exemplo: como foi chegar à cidade grande?



Perguntas que atrapalham:

  • Genéricas - Estimulam respostas genéricas (“boa” ou “muito difícil”), sem histórias. Exemplo: como foi sua infância?
  • Puramente informativas - Podem desconcertar o entrevistado e interromper sua narrativa. Exemplo: qual era o nome da praça? (Se importante, tal dado deve ser pesquisado antes ou depois da entrevista.)
  • Com pressupostos - Propiciam respostas meramente opinativas. Exemplo: o que você acha da situação atual do Brasil?
  • Com julgamento de valor - Atendem apenas a hipóteses e anseios do entrevistador. Exemplo: você não acha que deveria ter feito algo?

Construindo Um Roteiro

  1. Para começar – Começar com perguntas fáceis de responder, como nome, local e data de nascimento. Além de contextualizar a pessoa, essas perguntas têm a função de “esquentar” a entrevista. É como um começo delicado de um relacionamento, e nada como perguntas simples e objetivas para deixar o entrevistado à vontade e ajudá-lo a mergulhar em suas memórias.
  2. Encadeamento – A ordem cronológica costuma ser um bom fio condutor da conversa, mas não é o único. Vale observar se a comunidade ou grupo tem outra lógica de organização de suas histórias. Se for adotado o critério cronológico, o roteiro pode ser organizado em três grandes blocos de perguntas:
    • Introdução – Origem da pessoa, pais, avós, infância.
    • Desenvolvimento – Fases da sua trajetória, incluindo, se for o caso, o tema específico do projeto.
    • Finalização – Conclusão da história, relação com o presente e o futuro.
  3. Número de perguntas – O roteiro não precisa ser extenso nem exaurir todos os temas, pois é apenas uma base para a entrevista. Um bom
    exercício é começar construindo dez perguntas (três de início, quatro de desenvolvimento e três de finalização) e depois subdividir cada
    uma em sub-blocos temáticos.

Sugestões de Equipamentos

Gravação em vídeo
Equipamento – Uma câmera de vídeo, um tripé de câmera, um par de microfones, um kit básico de luz e um fundo fotográfico. Câmeras – Vale tentar os modelos digitais, sobretudo DVCam. Enquadramento padrão – É o chamado plano americano, que registra o depoente de maneira semelhante a uma fotografia 3x4. Sem movimentos significativos de câmera, salvo em ocasiões nas quais o entrevistado se movimenta a ponto de comprometer o enquadramento.
Iluminação básica – O objetivo é homogeneidade e baixo contraste.
Gravação em áudio
Equipamento – Um gravador (de preferência digital), dois microfones de lapela com fio (recomendado) ou um “microfone de mão”.
Gravadores – Os gravadores digitais são de pequeno porte, com melhor qualidade de registro, sem o risco de deterioração das fitas cassete. Eles registram, na memória do equipamento, o áudio num arquivo digital, que depois é salvo no computador e reproduzido em CD.
Microfone – No caso de microfones de lapela, um deve ser colocado no entrevistador e o outro no entrevistado. Microfones de lapela devem ser presos às roupas a cerca de 20 cm da boca, sempre longe de colares ou gravatas. No caso de “microfone de mão”, é necessário acoplá-lo a um pedestal montado o mais perto possível do entrevistador, já que é menos sensível.


Dicas
Vários podem ser os ambientes para a realização da entrevista. Mas, preferencialmente, devem ser locais silenciosos, sem outros estímulos. Avisar o entrevistado que, sempre que quiser, poderá ser feito um intervalo. No entanto, é importante que a entrevista não seja interrompida pelos entrevistadores ou pela equipe de gravação. É importante que todos desliguem celulares, pagers, e que peçam a familiares ou pessoas do entorno que não interrompam a entrevista.

 

Escolhendo entrevistados

O roteiro a seguir pode orientar a escolha dos entrevistados:

  • Definir critérios – O grupo deve buscar os critérios que podem garantir a profundidade e a diversidade de assuntos e enfoques desejados. Sendo a história uma narrativa e os entrevistados autores dessa narrativa, quanto mais diversos, mais rico será o resultado.
  • Mapear nomes – Definidos os critérios, uma primeira lista de nomes pode ser produzida a partir da leitura de material já existente sobre o tema, bem como da sugestão das pessoas do grupo. Também vale lançar a pergunta para a instituição ou comunidade em geral: quem você conhece que pode nos ajudar a contar essa história?
  • Contato inicial – Uma pré-conversa com o potencial entrevistado permite que a equipe confirme as informações da indicação, bem como apresente o projeto à pessoa e saiba se ela deseja compartilhar sua história. Cabe exclusivamente a ela aceitar ou não o convite. Nesse momento, a equipe também pode avaliar se a pessoa precisa de alguma atenção especial por conta da idade ou alguma deficiência.
  • Pesquisa preparatória – Uma pesquisa preliminar em jornais, livros ou na internet pode ajudar a equipe a compreender melhor o contexto dos entrevistados: seus costumes, sua época, suas características culturais. Também facilita a elaboração das perguntas e a condução do depoimento.

Como o acervo pessoal de fotos do entrevistado pode facilitar o trabalho:

  • Pedir ao entrevistado que selecione fotos, objetos e documentos significativos da sua trajetória de vida. O convite para a entrevista costuma ser um bom momento para esse pedido.
  • Estimular o entrevistado a contar as histórias ligadas ao seu acervo.
  • É necessário reservar tempo e criar ambiente para levantar e registrar esses relatos. Essa conversa pode ser antes ou depois da entrevista ou até mesmo em outra ocasião agendada.
  • Registrar o relato sobre as fotos e os documentos. Ele pode ser anotado pelo entrevistador ou até mesmo gravado em áudio ou vídeo.
  • O entrevistado também pode ser convidado a escrever sobre ele.
  • Identificar e processar esse conteúdo como parte do acervo do projeto. Assim, as fotos, os documentos e objetos poderão ser consultados, além de serem rica matéria-prima para elaboração de produtos.

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