Instituto Histórico IMPHIC - Betim

"Sapire ut protegas, Protegere ut conserues"

Também chamada rezadeira. O ministério da benzedeira ou do benzedor é rezar pelos males que afligem o povo, sobretudo os pobres. Não existe benzedeira sem que haja uma comunidade buscando suas orações. Mesmo assim, recorrem a ela pessoas de todas as classes sociais. v. Abençoar. w Há bênçãos para pessoas, animais e negócios. A benzedeira reza pela paz nas famílias, para tirar cobras de uma fazenda, para se fazer boa viagem. Reza para doentes, mesmo quando estão distantes. A benzedeira também costuma ensinar remédios. v. Medicina caseira. v. Plantas na religião. w O ritual da bênção freqüentemente acontece perto do oratório, onde há uma vela acesa. Muitas rezadeiras têm um quartinho especial para a oração. w Cada rezador ou rezadeira tem seu carisma. A rezadeira idosa é procurada para aconselhar menina-moça na puberdade. A rezadeira reza em crianças doentes de mau olhado. A própria mãe também pode benzer a criança. Às vezes, o rezador ou a rezadeira pega um pouco do mal que faz o doente sofrer. Poe ex., rezar ou benzer quebranto pode fazer a rezadeira bocejar. A rezadeira entende seu trabalho como um serviço que ela assume por tradição, em resposta à necessidade da sua comunidade. w Uma benzedeira em Minas Gerais: "Era assim que Siá Critéria benzia de quebranto: Fazia uma cruz com os pés da criança, rezando três vezes o padre-nosso e ave-maria; virando-a de bruços, tomava-lhe os pés bem juntinhos, sobre os quais fazia o nome do Padre, e oferecia a Nosso Senhor Jesus Cristo. Ou então rezava assim: Deus qui te feis,/ Deus qui ti criou,/ Nossa Senhora é qui tira /esse mal qui ti introu.// E rezava um padre-nosso e uma ave-maria a Nossa Senhora da Aparecida"[1]. w Nem todo mundo tem aptidão de curar pela oração. É claro que a psicologia é fator importante, mas como explicar a cura à distância, cura de crianças e até de animais apenas pela sugestão? Os rezadores dizem que é a fé que cura, e costumam rezar gratuitamente. Em geral, não se consideram dotados de forças especiais, como sugerem os adeptos da parapsicologia. w Quase sempre é com algum parente próximo que as benzedeiras aprendem as orações, os gestos e os remédios, e não gostam de passar a estranhos as palavras que rezam. w Discriminação e controle social: na Idade Média, muitas rezadeiras, acusadas de serem bruxas, foram perseguidas pela Inquisição. Hoje, o mesmo controle social é exercido em nome da medicina erudita e da psiquiatria[2]. w Caso raro é a benzedeira evangélica. Em Mogi das Cruzes (SP), dona Violeta benze com a Bíblia as pessoas doentes e manda tomar chá de várias plantas colhidas no quintal. (Inf.: José Eustáquio da Costa)

[1] MATOS, Ivo de. 2a.Ed. Mumbuca. Belo Horizonte, Ed.São Vicente, 1980. p.53.

[2] OLIVEIRA, Elda Rizzo de. O que é Benzeção. (Col.Primeiros Passos: 142) São Paulo, Ed.Brasiliense, 1985. p.17

Texto de Armando Sérgio Mercadante
“Não acredito em bruxas. Mas que existem, existem”
(Ortega y Gasset)

Com meus olhos arregalados e o coração atropelando o compasso acompanhava atentamente todos os passos do ritual das minhas benzedeiras. Por mais que me esforçasse não conseguia entender a linguagem que ela usava para quebrar o quebranto ou cortar o cobreiro. Naquela época toda criança que se prezasse tinha que ter a sua benzedeira. Eu tive três: Catarina, Conceição e Amélia. Era só ficar com abrição de boca, insônia, quieto demais que o diagnóstico era infalível: oio-gordo, mau-oiado, quebranto. Se aparecesse coceira na pele e surgissem pontos vermelhos era cobreiro.


Nossas benzedeiras eram mulheres que com seus ofícios contribuíam para aliviar o sofrimento humano. Geralmente eram casadas, pobres, mães de alguns filhos, que conheciam rezas, ervas, massagens, cataplasmas, chás e simpatias, e tinham um quê de mistério, que lidavam com a magia, feitiçaria e bruxaria. Ela era uma cientista popular que possui uma maneira muito peculiar de curar: combinava os místicos da religião e os truques da magia aos conhecimentos da medicina popular.


Seguem algumas jaculatórias usadas por benzedeiras:

1) Espinhela caída:
Jesus Cristo quando andou no mundo, três coisas ele levantou: arca, vento, espinhela caída. Assim eu peço a vós que levanta esta arca pelo amor de Deus.

2)Cobreiro
Na proteção do senhô/Que fez o céu e a terra,/Eu entrei em Roma, em romaria/Benzendo cobra, cobraria./Corto cabeça, corto meio, corto cobreiro./Mal entrei em Roma, romaria,/Benzendo lagartixa,, lagartixaria,/Corto cabeça, corto rabo , corto meio./Entrei em Roma, romaria,/Corto cabeça, corto rabo, corto meio, corto cobreiro./Mal entrei em Roma, romaria/benzendo sapo, saparia,/Corto cabeça, corto meio, corto meio, corto rabo,/Corto cabeça, corto cobreiro,/Com os poderes de Deus e da Virgem Maria.

3)Quebrante, mal-olhado, olho ruim:
Com dois eu te vejo,/
três eu quebro encanto/
a palavra de Deus e a Virgem Maria é quem cura/
Quebrante, mal-oiado e oio ruim,/
Leve o que trouxes/
Deus, benza (quem estiver lendo) com a santíssima Cruz./
Deus defenda de mau-olhado, de quebrante, de macumba,/
De feitiço, de malefício e de todos os males que lhe fizeram./
Quem está fazendo ferro?/
eu sou aço;/
Quem está fazendo é o demônio/
e eu vos embaraço, com os poderes de Deus, Jesus e a Virgem Maria.

4)Erisipela
São Pedro quando andou pelo mundo encontrou fulano ... com isipela, Isipela – isipelão, que ele tem no tutano, deu no osso, do osso deu na carne, da carne deu no sangue, do sangue deu na pele, da pele caiu no chão, isipela, isipelinha, isipelão.

5) Dor-de-cabeça:
Saiu Juliana mais Fabiano/
Encontrou Nossa Senhora./
Ela perguntou o que tem Juliana mais Fabiano/
Dor de cabeça, sinhora. Quer que eu ti sare?/
Sararei Sinhora./
Ajunta caco cum caco, muleira cum muleira/
Estarei curado cum os puderes de Deus e da Virgem Maria.../
Cãimbra de sol/
Sereno somá/
tia essa dô de cabeça/
E joga nas ondas do mar./
Deus é salvo, Deus é virge, Deus é claridade/
Seu vosso dia/
Sarai esta dô de cabeça com esta Ave Maria.


As jaculatórias eram rezadas sobre o local enfermo do corpo da pessoa que estava sendo benzida, e a benzedeira as repete]ia três vezes. Manipulava ramos de plantas (arruda ou guiné, pimenta malagueta ou fedegoso), ou o rosário acompanhado do gesto eficaz do sinal da cruz, antes, durante e depois da benzeção. Como parte do ato de benzer, as jaculatórias eram oferecidas a um santo de devoção da benzedeira: São Bento, Jesus Cristo, Nossa Senhora do Alívio, São Brás, Santa Efigênia ou Todos os Santos.


Na benzeção por mau-jeito ou rendidura , ao chamar o nome da criança, a benzedeira rezava o credo, apontando para o local enfermo. Riscava três cruzes de sal no mesmo local, alternando-as até completar a marcação que era feita num rosário de contas que, em pé, ela segurava. Finalizava o ritual chamando novamente o nome da criança, rezando um Pai Nosso e uma Ave Maria e suplicando a cura a um santo de sua devoção: São Judas ou Nossa Senhora da Aparecida.


Sobre a eficácia da benzeção, segundo a Profa. Elda Rizzo de Oliveira, em sua obra A BENZEÇÃO, publicada pela Editora Brasiliense, “a Organização Mundial de Saúde já recomendou aos países subdesenvolvidos que valorizassem seus curandeiros como meta para resolverem seus problemas de saúde até o ano 2000”.


Muitas pessoas afirmam terem sido curadas por benzedeiras. Outras, no entanto, dizem que não passa de crendice popular, tapeação.

Como dizia Shakeaspere: “existem mais mistérios entre o céu e a terra do que a nossa pobre razão pode imaginar”.


Parodiando o grande filósofo espanhol Ortega y Gasset ouso afirmar: Não acredito em benzedeiras. Mas que curam, curam.

A bênção Donas Sagá, Corina, Catarina, Conceição e Amélia.

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Respostas a este tópico

Grande Avner que Beleza hein??? e o trançador de balaio lá do Burro Frouxo rapaz.... com 71 anos forte daquele tanto!!! e o cafezinho da benzedeira então??? olha me fez recordar que eu tb ia na benzedeira aqui em Betim mesmo!!! vç lembra da Elvira da Vila Vicentina??? Uma Senhora Cega que morava sozinha... já benzi muito com ela... minha esposa lembrou ainda do Manuel Sapucaia, do Sr.ALberto e da Esposa dele que moravam no Angola perto da Praça São Cristóvão na rua lateral do antigo Clóvis Salgado.... ela disse tinha muita gente ainda dos antigos mas que já não se lembrava, a Mãe dela talvez ainda se recorde, e hoje em dia há a Sra.Olga no Brasiléa perto da TV Betim que ainda Benze, ela leva meus filhos lá de vez em quando para benzer, disse que apesar de ela ser uma Senhora de idade não é das "Antigas" pois a maioria das benzedeiras antigas já faleceu (inclusive a Elvira) Ah! quantas saudades da Elvira... esta nossa terra realmente é muito rica!!! estou ficando a cada dia que passa cada vez mais "bairrista" como Vç. Viva Betim!!!!
Nossa! A Dona Cecília Cacimba era a maior benzedeira de Betim. Acho que quase Betim inteira foi benzida por ela no Filadélfia. Vai ai uma foto em dela (em anexo) pra recordar a memória. Vento virado e carne quebrada é o que eu mais me recordo de suas benzeções, fora o café que todos que iam na casa dela tinham que tomar, não podia fazer desfeita rs
Oi zinho, minha mãe tb era benzedeira. Tenho guardado o caderno dela com todas as orações. Já sei de cor algumas delas. por ex; " O que corto? cobreiro bravo.
Eu corto a cabeça e corto o rabo." Ela rezava cortando talos de mamonas e depois colocava em cima do telhado para secar. Precisava benzer por três vezes . qdo os talos secassem o cobreiro tb secaria... e mtas outras... para cortar medo das crianças aprenderem a andar; jeito, mordida de cobra , sapinho, .....
eta saudade
Dna. Cecilia, Minha vó tbm fazia essa, rs...
tinha "carne quebrada", quebranto (com brasa la lata dagua), vento virado
tbm apredi isso tudo com ela

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