Instituto Histórico IMPHIC - Betim

"Sapire ut protegas, Protegere ut conserues"

 

 

As festas de devoção a Nossa Senhora do Rosário, celebradas ao som de tambores e coroação de reis negros, ora realizadas nas Irmandades negras em meio à diversidade cultural do Brasil Colonial, ainda hoje estão presentes em grande parte do nosso país, com destaque para o estado de Minas Gerais, onde existem várias irmandades religiosas com seus reinados de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Ifigênia. Há uma grande variedade de relatos de viajantes nos séculos XVIII e XIX, e escritos descritivos do século XX, que versam sobre essas festas, que receberam variadas denominações.
Vamos, aqui, discutir um pouco sobre esta tradição tão antiga em nosso municipio, seus ritos, tradições etc.

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A Imagem de Nossa Senhora do Rosário pertencente a Capela localizada no Bairro do Angola mistura-se com a própria história da Irmandade do Rosário em Betim. Para entender o que é a devoção à Virgem do Rosário, sua relação com as Irmandades e conseqüentemente da Imagem pertencente à referida Capela temos que voltar às origens dessa devoção para entender seu desenvolvimento e relação com a cultura negra.

Devoção à Virgem do Rosário
A origem da devoção a Nossa Senhora do Rosário remonta ao século XIII tendo se propagado através de São Domingos Gusmão para quem a virgem teria aparecido e entregado um rosário em 1208 na Igreja de Prouille, França. De acordo com Cota e Souza (2007: 1-5) há registros de que o Papa Pio V teria pressentido no ano de 1571 a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos na Batalha de Muret, fato que veio a confirmar-se como verdadeiro implicando na construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora da Vitória. Em 1572, por ocasião de outra vitória cristã, desta vez na Batalha de Lepanto, o Papa instituiu a festa de Nossa Senhora da Vitória como uma celebração litúrgica para que pudesse ser comemorada todos os anos na data de aniversário do acontecimento, 7 de outubro. Em razão de naquele mesmo dia haver sido feita uma procissão do Rosário na Praça de São Pedro, em Roma, solicitando o sucesso da missão da Liga Santa contra os turcos otomanos no oeste da Europa, Nossa Senhora da Vitória foi então denominada Nossa Senhora do Rosário.

Fora assim, através de Pio V, que a devoção a Nossa Senhora do Rosário teria sido criada e propagada por toda a Europa (e posteriormente ao mundo) em uma época de lutas em que eram reincidentes os apelos da Igreja aos cristãos para que rezassem pela vitória da cristandade. De acordo com pesquisa realizada por João César das Neves[2] além de apelar às nações católicas para defesa da religião cristã o Papa teria estabelecido que o Santo Rosário fosse rezado diariamente por todos, como forma de pedir ajuda à mãe de Deus para a conquista da paz e da vitória. Tal desejo, concretizado com a queda de Constantinopla e o fim da Idade média efetivou a crença no poder de Nossa Senhora do Rosário quando finalmente, após anos de luta, a 7 de Outubro de 1571 a frota ocidental, comandada por D. João da Áustria (1545-1578), teve uma retumbante vitória na batalha naval de Lepanto, ao largo da Grécia, afirma o autor. Conta-se que nesse mesmo dia, em meio a uma reunião com os cardeais, o Papa levantou-se, abriu a janela e disse: “Interrompamos o nosso trabalho; a nossa grande tarefa neste momento é a de agradecer a Deus pela vitória que ele acabou de dar ao exército cristão”.

Conforme Sgarbossa e Giovannini (1983: 300), o rosário teria nascido do amor dos cristãos por Maria na época medieval, provavelmente no tempo das cruzadas à Terra Santa. O objeto de recitação desta oração, o terço, era confeccionado com pedrinhas e nos conventos medievais os irmãos leigos, dispensados da recitação do Saltério pela pouca familiaridade com o latim, completavam as suas práticas de piedade com a recitação repetida do Pai-nosso. Segundo os autores, haveria uma lenda pela qual Nossa Senhora, tendo aparecido a São Domingos, teria lhe indicado a recitação do Rosário como arma eficaz para debelar os hereges albigenses e, por esta razão, os principais promotores desta devoção teriam sido os dominicanos. A festa do Santíssimo Rosário, assim chamada antes da reforma do calendário católico em 1960, seria um resumo de todas as festas de Nossa Senhora dada a importância atribuída às orações dos fiéis à vitória conquistada pelos cristãos em Lepanto.

ORIGEM DA IRMANDADE
A Irmandade do Rosário, até chegar aqui em Betim, percorreu um longo caminho no tempo e no espaço. Fruto da miscigenação de tradições européias, africanas e indígenas, as irmandades do Rosário em Minas Gerais traça suas origens em grandes movimentos religiosos do catolicismo europeu, as tradições ancestrais dos ritos africanos e indígenas.
A irmandade de Nossa Senhora do Rosário surgiu na Alemanha, em Düsseldorf, em 1408. Foi para Portugal em 1410 e em 1460 já contava com cerca de 100 mil irmãos. Em 1415 os portugueses, sob a liderança do Infante Dom Henrique e seus dois irmãos, filhos de D. João I e D. Filipa de Lencastre, conquistam Ceuta, no Norte da África. Para eles, o feito faz parte da fase final da reconquista. Em 4 de abril de 1418, os mouros tentam retomar Ceuta e D. Henrique apressa-se em defender a cidade. Nesse mesmo ano, o Papa Martinho V concede favores espirituais a quem ajudar o rei D.João I na guerra contra os mouros e outros infiéis. D. João apressa-se em ordenar o retorno do filho, mas esse contato com os árabes planta no coração de D. Henrique, o desejo de explorar as ricas terras das quais eles falavam.
Em 1419, D. João nomeia-o governador de Algarve e mestre da Ordem de Cristo. A primeira honraria lhe permitiu viver na mais meridional das províncias portuguesas da orla marítima e a segunda, trazia-lhe rendimentos para financiar suas expedições, mas condenava-o ao celibato aos 26 anos de idade.

Em 1434, os navios de D.Henrique abriram caminhos para o sul. Queriam descobrir até onde se estendiam as terras dos infiéis (mouros), negociar com outros povos e convertê-los ao cristianismo. Para este descobrimento, D.Henrique contou com as finanças da Ordem de Cristo. O historiador Pe. Miguel de Oliveira diz:

"A obra portuguesa das conquistas e descobrimentos foi, em princípio, uma nova Cruzada religiosa. Assim a entenderam, desde logo, os pontífices. Martinho V concedeu largas indulgências aos que auxiliassem o rei D.João I a prosseguir a campanha de África e recomendou às autoridades eclesiásticas que pregassem a cruzada, pois se tratava de dilatar a fé cristã (Bula "Sane Charissimus", 04/04/1418). Eugênio IV fez idênticas concessões nos reinados de D.Duarte e D.Afonso V (Bulas "Rex Regum", 08/09/1436 e 05/01/1443). Outros papas foram renovando essas graças e indulgências, até que, desde 1591, se estabeleceu a concessão regular e periódica da Bula da Cruzada." (OLIVEIRA,Miguel de.Pe. "História Eclesiástica de Portugal".4aEd. Lisboa,União Gráfica,1968. pp.196-198.)

Em 1444 dá-se a primeira venda pública de escravos em Portugal. Assim, um triste efeito secundário das explorações do infante seria a participação da Europa no comércio de escravos da África Ocidental, um tráfico cruel que viria a florescer realmente depois de Cristóvão Colombo descobrir as Índias Ocidentais, onde havia carência de mão-de-obra.
A ilha de Arguim foi alcançada em 1443 e a 8 de agosto de 1444, escreve Gomes Eanes de Azurara na sua "Crônica dos feitos de Guiné" (1453), realizou-se a primeira venda pública de escravos, em Lagos (Algarve), na presença do Infante D.Henrique, o impulsionador das expedições africanas.

Em 1446 os portugueses chegam à Guiné. Nuno Tristão e companheiros morrem no combate dos Bijagós.Ao subir o rio Gâmbia, os guineenses alvejaram-nos com flechas envenenadas. No mesmo ano, chegaram Diogo Gomes e Luís Cadamosto. No início da colonização portuguesa, a Guiné indicava a terra dos negros em oposição à terra dos mouros do norte da África. É de fundamental importância o estudo da história do cristianismo na Guiné para se entender a origem das irmandades de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

D. Henrique, percebendo que a captura de escravos lhe troxera grande número de inimigos ao longo da costa da África, ordenou aos seus homens que negociassem, em vez de realizar incursões para obter escravos. Em 1450, os escravos do Golfo de Guiné são levados para Portugal.

Os primeiros documentos sobre o tráfico de escravos da Guiné e do Cabo Verde são: - Actas Capitulares 1452 (Arquivo Municipal de Sevilla) e - Chanc. D. Afonso V, L.9, fl. 95v. Ano: 1462 (Torre do Tombo). Apud: "Portugaliae Monumenta Africana". Vol. I. Lisboa, Com. Nac. para as Comemorações dos descobrimentos portugueses/Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1995. Doc. 08 e 40. pp. 6 e 118.

A escravidão obtém a aprovação eclesiástica em 1452. No breve "Dum Diversitas" de 16/06/1452, nas décadas finais da Reconquista da Península, o Pp. Nicolau V escrevia ao Rei de Portugal:

"... nós lhe outorgamos, pelos presentes documentos, com nossa autoridade apostólica, plena e livre permissão de invadir, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, onde quer que seja, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades<...> e reduzir essas pessoas à escravidão perpétua".

Dois anos mais tarde, confirmou, por outro breve "Romanus Pontifex" (21/06/1454), estes supostos direitos. Calixto III ("Inter Coetera", 15/03/1456), Sixto IV ("Aeterni Regis", 21/06/1481) e Leão X ("Praecelso Devotionis", 03/11/1514) também confirmaram essas concessões de poder, que, depois, foram extendidas, por bulas e breves papais, aos reis da Espanha.

1453 – Crônicas importantes.
Gomes Eanes de Azurara nos deixou a importante "Crônica dos Feitos de Guiné" (1453). No Cap.VII, Azurara dá as 5 razões que teve o Infante D. Henrique ao iniciar a cruzada de descobrimentos para "além das ilhas de Canária e de um cabo que se chama de bojador":
• "por haver de tudo manifesta certidão, movendo-se a isso por serviço de Deus e del-Rei D. Eduarte seu senhor e irmão".
• "porque se poderiam para estes reinos trazer muitas mercadorias, cujo tráfego trazeria grande proveito aos naturais."
• - "para determinadamente conhecer até onde chegava o poder daqueles infiéis (mouros)".
• "se se achariam em aquelas partes alguns príncipes cristãos em que a caridade e amor de Cristo fosse tão esforçada que o quisessem ajudar contra aqueles inimigos da fé."
• - "o grande desejo que havia de acrescentar em a santa Fé de nosso senhor Jesus Cristo e trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar." (Apud:REMA,Henrique Pinto.OFM.."História das Missões Católicas da Guiné". Braga, Ed. Franciscana,1982.p.14.)
Na mesma era, o navegador Diogo Gomes (c.1502) escreveu "De Prima Inventione Guinee"(c.1453).

1478 - Fundação da primeira Irmandade do Rosário dos brancos de Portugal, em Lisboa.
(PIMENTEL,Alberto. "História do Culto de Nossa Senhora em Portugal". Lisboa,1899.p.46ss.)

1482 – Chegada dos portugueses ao Reino do Congo.
Ao colocar a marca do Reino luso à margem do rio Congo, o navegador Diogo Cão diz:
"Na era da criação do mundo de 6881, do nascimento de Nosso Senhor de 1482, o mui alto, mui excelente e principe el-rei D.João II mandou descobrir estas terras e pôr este padrão por Diogo Cão, escudeiro da sua casa."

- O cristianismo chegou ao Congo de maneira mais ou menos espetacular. Diogo Cão mandou uma delegação com presentes ao Manicongo (rei do Congo), na cidade de Mbanza. Como os portugueses não voltaram, o navegador prendeu 4 indígenas e levou-os consigo para Portugal prometendo o regresso. Os quatro foram catequizados e batizados em 1483. Ao voltar, em 1484, os portugueses madaram um dos 4 para Mbanza e pediram a troca de prisioneiros que aconteceu sem problemas. Depois o rei do Congo Nzinga-a-Nkuvu, mandou uma embaixada com presentes a Dom João II e pediu missionários e artífices. O chefe da embaixada, Caçuta, e seus companheiros, foram batizados em Portugal. No dia 19 de dezembro de 1490 partiu de Lisboa a primeira expedição missionária com finalidade religiosa, política e econômica. À sua chegada, em 1491, segue-se o batismo do conde de Soyo, na festa da Páscoa. A expedição segue caminho para Mbanza, onde se dará o batismo do rei do Congo. Mais logo surgiriam os conflitos por causa da ganância dos portugueses. O segundo rei do Congo, o filho mais velho do Manicongo, Mbemba-a-Nzinga (D.Afonso I) manifestou a D.Manuel, rei de Portugal, o seu desgosto pelo comportamento dos missionários na educação de 400 jovens africanos que arregimentou. Além disso, só aceitava como escravos os capturados na guerra e opôs-se ao comércio de homens livres. As ordens religiosas também tinham escravos ao seu serviço. (MUACA, Eduardo A. "Breve História da Evangelização de Angola.1491-1991". Lisboa, Secr. Nac.das Comemorações dos 5 Séculos, 1991.pp.13-18.)

1491 – Na África, o batismo do rei do Congo.
O poderoso Reino do Congo foi o primeiro a fazer uma aliança com os portugueses, depois que o manicongo (rei), por meio de um embaixador e presentes, pediu a D.João II missionários e artífices. Chegaram no Congo em 1491 o embaixador português acompanhado pelos primeiros missionários chamados "nganga à Nzambi". Foram para Mbanza, a cidade do rei Nzinga-a-Nkuvu, que mandou pessoal e mantimentos ao seu encontro. O historiador Eduardo A. Muaca, na "Breve História da Evangelização de Angola. 1491-1991" (Lisboa, Secr. Nac. das Comemorações dos 5 Séculos, 1991. pp.14-15.) conta:

"Todos os grandes do Reino estavam em Mbanza. Os portugueses entraram na cidade. O rei estava sentado num trono de marfim colocado sobre um estrado. Coube aos frades entregar ao rei os presentes do monarca português: louças e talheres em ouro e prata; alfaias do culto; pratos de ouro e prata; brocados em peças, panos de seda; veludos de carmezim; painéis de boa pintura; rabos de cavalo guarnecidos de prata, etc. Finalmente surgiu uma cruz de prata, benzida pelo Papa Inocêncio VIII. Os portugueses ajoelharam-se. O rei, que tinha o tronco nu, um rabo de cavalo a pender-lhe do ombro esquerdo e manto de damasco a tapar-lhe os pés, inclinou-se. Seguiu-se depois uma ruidosa festa, à maneira africana. Na expedição, além de frades, vinham pedreiros, carpinteiros, sacristães e mulheres para ensinar a cozer o pão. Todos foram apresentados ao rei. - A catequese começou logo pelo rei e pelos nobres, enquanto os operários portugueses construíam a primeira igreja. Esperavam inaugurá-la no dia do batismo do rei. Entretanto, chega a notícia da revolta dos Anzicas. O rei não quer ir pagão para a guerra, pediu que se antecipassasse a cerimônia. Os frades fizeram-lhe a vontade. Foi batizado com o nome de D.João I. E a rainha tomou o nome de Leonor. No dia seguinte ao batismo, D.João I, de acordo com seu filho mais velho, D.Afonso (Mbemba-a-Nzinga) e outros nobres, mandou queimar todos os feitiços venerados pelo povo o que provocou a indignação do filho mais novo, Panzo-a-Kitina ou Panzo Aquitino."

Na Páscoa de 1493, após sua conversão, o manicongo Nkuvu oficializou a Igreja Católica como religião do seu reino. Em seguida. Os frades dominicanos iniciaram a catequese do povo em seu reino.

Após a sua conversão precipitada, o rei acabou voltando para a religião dos seus antepassados. Mas antes de morrer em 1506 indicou como sucessor o seu filho Mbumba à Njinga que se havia convertido e foi batizado com o nome de Dom Afonso I. Este estudou em Coimbra e, depois, empenhou-se em criar um reinado cristão no Congo. Várias fontes falam sobre a influência portuguesa na corte do rei Congo. Por ex.: FELGAS, Hélio A. Esteves. Maj. "História do Congo Português". Carmona, 1958. pp.21-64. - NUNES, Jerônimo. Pe. "400 anos da diocese de Congo." In: "Cruzada Missionária". Ano LXV. Abril/1997. pp.4-5.
1496 – Em Lisboa, a primeira Irmandade do Rosário dos escravos.

A mais antiga menção a uma "Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos" encontramos em 14 de julho de 1496, portanto quatro anos antes da descoberta do Brasil. Trata-se de um alvará dado à dita confraria, sita no mosteiro de S. Domingos de Lisboa, para poderem dar círios e recolher as esmolas nas caravelas que vão à Mina e aos rios da Guiné. O importante documento (Confirmações Gerais, L.2.fls.107v.-108) acha-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

1498 – Chegada dos portugueses a Moçambique.
Em 11 de março de 1498, na ilha de São Jorge, missionários que acompanhavam Vasco de Gama em viagem a Gôa celebravam a primeira missa. Em 1591 já havia 20.000 batizados, na região do Zambeze. Entre as obras deixadas por missionários dominicanos nos primórdios do séc.XVII acha-se uma igreja de Nossa Senhora do Rosário em Massapa, a 50 léguas de Tete, no Mazoé, e outra na vila de Sofala. (GARCIA, Antônio. S. J. "História de Moçambique Cristão". Vol.I-II. Braga, Livraria Cruz, 1972. p. 319) - As religiões tradicionais conhecem um Ser Supremo (Mulungu, Muári, e outros nomes) e o culto dos antepassados e dos espíritos.

1500 – Uma igreja do Rosário, em Cabo Verde.
Na ilha de Santiago, na Cidade Velha (Ribeira Grande), existe uma igreja de N.Sra.do Rosário construída em 1500. (BALENO, Ilídio. "Subsídios para a História de Cabo Verde, a necessidade das fontes locais através dos vestígios materiais". (Série Separatas: 219) Lisboa, Centro de Estudos de História e Cartografia antiga/Instituto de Investigação Científica Tropical, 1989. p.7.)

1521 – A embaixada de Dom Afonso a Roma.
O rei do Congo, D.Afonso, mandou ao Papa uma embaixada para prestar-lhe obediência como o faziam os outros reis cristãos. Desta embaixada fazia parte D.Henrique, filho do rei do Congo que mais tarde veio a ser bispo titular de Útica (pelo Pp.Leão X, 1518) e auxiliar de Funchal. Em seguida, governou a Igreja do Congo de 1521 a 1531. Foi o primeiro bispo da África Austral. O reino do Congo viveu seu apogeu neste séc.XVI. - Muito mais informações sobre o reino do Congo, Dom Afonso I e seu filho bispo D.Henrique nos traz Manuel Nunes Gabriel nas 60 páginas de "D.Afonso I, rei do Congo." Lisboa, Secr. Nac. das Comemorações dos 5 Séculos.,1991.60 pág. – Naquele tempo, o rei de Portugal tratou o rei do Congo (hoje: sul do Congo, oeste do Zaire e norte da Angola) como seu igual. Trocaram embaixadores. Tudo isso é um caso único na África. O soberano do grande reino do Congo aceitou a religião cristã livremente e após contatos diplomáticos. Enquanto a maioria dos chefes africanos relutaram para converter-se ao cristianismo, o batismo do rei do Congo forma uma notável exceção.

1526 – A primeira Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, na África.
A pedido de dois homens pretos livres, o rei de Portugal autorizou a fundação da Irmandade na ilha de São Tomé. (BOXER, C. R.. "Race Relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415-1825". Oxford, Clarendon Press,1963. p. 14. Apud: KIDDY,Elizabeth W.. "Brotherhoods of Our Lady of the Rosary of the Blacks:Community and Devotion in Minas Gerais, Brazil". Albuquerque,New Mexico,1998.p.79)

1533 – Criação da Diocese de Cabo Verde e Guiné.
A diocese foi criada, na Ilha de Ribeira Grande, com sede na igreja de Santiago.

1533 – Numerosos escravos em Portugal.
O humanista Cleonardo escreve em 1533: "Estou a crer que em Lisboa os escravos e as escravas são mais que os portugueses livres de condição." Dizem que ele exagerou. Segundo Cristovão de Oliveira haveria em Lisboa, nos meados do séc.XVI, 10.000 escravos, ou seja, 10% da população.

1538 – Outras irmandades dos Pretos em Portugal.
Segundo Joaquim Veríssimo Serrão, em 1538 havia em Lisboa uma Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, de que era mordomo um Francisco Lopes, escravo forro, e, em 1553, de outra de Lagos. O mesmo autor fala de "uma festa dos negros de Colares, em 1563, na fazenda de Francisco Melo e com a participação de um seu escravo. Muitos outros casos se poderiam referir."( "História de Portugal". Vol.III (1495-1580). Lisboa, Verbo, 1980. pp. 274-275).

1552(c.) – Uma Irmandade do Rosário de escravos de Guiné, em Pernambuco.
Em Goiana (PE), há uma igreja de N.Sra.do Rosário dos Pretos (séc.XVI). A partir daí, se espalhou pelo Brasil. - O historiador Frei Odulfo Van der Vat OFM registra sem pormenores a existência de uma confraria do Rosário para os "muitos escravos de Guiné" na Capitania de Pernambuco antes de 1552. ("Princípios da Igreja no Brasil". Petrópolis, Vozes Ltda., 1952. p. 104. Nota: 1)

1559 – Permissão aos engenheiros brasileiros.
Em 1559, a Coroa portuguesa autorizou cada senhor de engenho a importar anualmente até 120 escravos da África. Em publicações diversas, o total dos escravos trazidos para o Brasil varia entre 3 e 13,5 milhões. Vieram africanos do Sudão (iorubas, daomeanos, haussas, tapas e mandingas) e, principalmente, bantos (da Guiné, Angola, Congo e Moçambique).

1559 – Cristianismo na Angola.
Em 1559 chegam os primeiros missionários para o reino de Angola. Os contatos entre Angola e Congo facilitaram as conversões. Em 1604 havia em Luanda, 20.000 cristãos. A rainha Ginga foi batizada por um frade capuchinho italiano, em 1622. Em 1663, o rei Luango pediu missionários em Luanda. Após um século, fracassaram as tentativas dos reis de Portugal e do Congo de constituir um reinado cristão, no vale do Congo. No entanto, o período está na origem dos reinados existentes no Brasil, nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. (Mais informações: R. Delgado. "História de Angola." 4 Vol. Lisboa, 1970).

1561 – Em Moçambique, o batismo do Monomotapa e assassinato do missionário.
O chamado "império do Monomotapa", entre os rios Zambeze e Limpopo no centro de Moçambique, existiu entre 1425 e 1884. - Em 1561, os padres jesuítas Dom Gonçalo da Silveira (1526-1561), André Fernandes e o irmão André da Costa tentaram converter o imperador Monomotapa. Gonçalo era missionário em Goa e bom filho de Portugal. Havia ouro em Moçambique e chamar o dono destas riquezas significaria abrir as portas do seu império ao comércio português. Uma carta (Goa, 1559) do próprio punho de Gonçalo diz: "Mas especialmente entra nesta empresa a conquista do imperador do ouro de Manamotapa, em cujo poder se diz que são minas e serras de ouro". Na verdade, em janeiro de 1561, o rei e sua mulher foram batizados D.Sebastião e D.Maria (nomes do rei e rainha de Portugal), juntamente com centenas de súditos. No entanto, Gonçalo de Silveira foi martirizado na noite de 15 de março de 1561, na corte do Monomotapa, junto ao rio Mussengueze (Cfr. Camões: Liv.X, cant. 93). Causa do assassinato: muçulmanos estrangeiros, donos do comércio local, ajudados pelos feiticeiros da terra convenceram o rei que o padre seria um espião do governador da Índia e do capitão de Sofala que planejavam matar o Monomotapa. Resumimos assim as 15 págs de um capítulo muito bem documentado de "Quadros da História de Moçambique" do cônego Alcântara Guerreiro. (Vol.I. Lourenço Marques,Imprensa Nacional de Moçambique, 1954. pp. 141-156).

1579 - Igrejas de N.Sra do Rosário, em Moçambique.
A igreja do Rosário em Moçambique fundada pelos dominicanos em 1579 foi destruída pelos holandeses em 1607.(ALMEIDA,Fortunato de. "História da Igreja em Portugal".Vol.II. Porto/Lisboa,Livr.Civilização Editora,1930.p.288) O Pe.Antônio Lourenço Farinha fala de outra igreja de N.Sra.do Rosário, no séc.XVIII, em Manica.("A Expansão da Fé na África e no Brasil". Lisboa,Divisão de Publicações e Biblioteca - Agência Geral das Colônias,1942.p.344).

1586 – Irmandades do Rosário nos engenhos, no Brasil.
Segundo Serafim Leite S J, no seu "História da Companhia de Jesus no Brasil" (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1938. Vol. II, pp. 340-341), os jesuítas fundaram várias irmandades do Rosário entre os escravos dos engenhos, a partir de 1586.

1588 – Em Portugal, mais notícias sobre uma Confraria dos Homens Pretos.
Havia uma "Confrarya de nosa Sõra do Rosairo dos homens pretos da villa dalcaçere do Sall", em 1588, em Portugal. ("Boletim da J. da Prov. da Estremadura" de 1954 (pág.134). Apud: REIS, Jacinto dos. Pe.. "Invocações de Nossa Senhora em Portugal de Aquém e Além-mar e seu Padroado". Lisboa,1967. p. 484)

1596 – Criação da diocese do Congo.
Em 25 de maio de 1596 foi criada a diocese do Congo.

1606 – Igrejas do Rosário, na Angola.
Na Angola, em Cambande, foi construída a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Também no séc. XVII, a igreja de N.Sra do Rosário das Pedras Negras e, a igreja de São Benedito, "reservada aos nativos", em Massanango. (FARINHA, Antônio Lourenço. Pe. "A Expansão da Fé na África e no Brasil". Lisboa, Div. Publicações e Biblioteca/Ag.Geral das Colônias, 1942. pp.252 e 254)

1607 – Na África, o Rei do Congo entra na Irmandade do Rosário.
O historiador Fortunato de Almeida na "História da Igreja em Portugal" (Vol.II.Porto/Lisboa,Livr.Civilização Editora,1930.pp.277-278) conta:

Cerca de 1607 chegaram a Lisboa embaixadores de D.Álvaro II, rei do Congo, os quais traziam, entre outros, o encargo de pedir a El-Rei que enviasse àquele reino alguns religiosos de S. Domingos, para pregarem e dilatarem a fé pelas terras vizinhas. A 25 de Março embarcaram para a missão três padres pregadores: Fr.Lourenço da Cunha, que levava o cargo de vigário, Fr. Fernando do Espírito Santo e Fr. Gonçalo de Carvalho; e o converso Fr. Domingos da Anunciação. Chegados a Luanda a 3 de Julho, de lá escreveram cartas ao rei do Congo e aos seus ministros, para cumprirem as ordens que quisessem dar-lhes. As respostas que tiveram foram muito benévolas, o que decerto mais animou os missionários a empreenderem a viagem para o Congo. Puseram-se a caminho no dia 16 de Setembro. - Na corte do Congo iniciaram logo a construção de uma igreja, e nesta, ainda antes de concluída, instituiu o vigário Fr. Lourenço a confraria do Rosário. "Ordenou uma procissão; disse sua missa cantada com música e charamelas do uso de Portugal, pregou e declarou ao povo os privilégios e perdões. Assistiu El-Rei, e mandou-se assentar por confrade com vinte mil reis de esmola na moeda dos seus búzios. O duque de Bamba foi segundo em se assentar com esmola igual, e logo seguiram todos os nobres com suas esmolas; por que são grandemente pontuais em seguir o que vêem a seu rei fazer, havendo que o agradam. Mandou El-Rei a um primo seu que fosse juiz da confraria, e o duque de Bamba procurador. "(Citação: SOUZA, Luís de. Fr. "História de S.Domingos". p.II, 1.VI, Cap.XIII.).

O fim da história é triste. Intrigas de um mau padre malogram a missão. Os missionários dominicanos ficam doentes e morrem. Em 1612, o bispo escreve uma carta ao rei de Portugal e se mostra desanimado. O rei do Congo não deixa de pedir favores e missionários portugueses.

1618 – A Rainha Ginga enfrenta Portugal.
"Ginga" é o nome português da rainha Nzinga Mbandi (1581-1663), que durante 13 anos lutou contra os portugueses em Angola. Mostrou firmeza na defesa da dignidade. Em meados do século XVI, o Congo e o Oeste africano se viram invadidos por povos guerreiros. Em Angola (de Ngola), se chamavam Gingas. Entre os reis guerreiros estava o fundador da dinastia Ginga: Ngola Ginga. Tomou ele dois reinos: o de Ndongo, que deu ao filho Ngola Bandi, e o de Mutamba, que governou. Dos descendentes, Ngola Ginga Bandi, irmão da Ginga de Mutamba, conseguiu ficar com os dois reinos, mandando matar vários parentes, inclusive o filho de Ginga. Em 1618, ele resolveu enfrentar os portugueses, e, depois de três anos de guerra, foi vencido por Luiz Mendes de Vasconcelos que ocupou a capital do Ngola e matou 94 dos seus chefes.

Em 1621, a rainha Ginga de Mutamba com uma vistosa comitiva foi então propor a paz, em Luanda. Aceitou certas condições que lhe foram impostas e se batizou em 1622 com o nome de Dona Ana de Souza, na igreja matriz de Luanda, mas não aceitava a submissão, não pagava tributos. No ano seguinte, moveu ela mesma guerra aos portugueses, depois de ter matado o irmão que assassinara seu filho. Ficou então como rainha dos dois reinos e seus povos. Foi então que ela permitiu que o capuchinho italiano Antônio Gaeta (+1662) morasse no seu reino. Gaeta levou-a a mudar de vida. Contra a vontade dos portugueses, Ginga mandou uma embaixada ao Papa Alexandre VII pedindo o reconhecimento do seu reino.
Esquecendo o padroado, o Papa enviou-lhe uma carta pessoal e outra da Sagrada Congregação da Propaganda Fide com orientações para que seu reino fosse cristão. Enviou mais missionários capuchinhos italianos e nomeou o Pe. Antônio Gaeta como prefeito apostólico da Mutamba. A carta da S. C. da Prop. Fide contém entre outras uma "proibição aos comerciantes e a qualquer outras pessoas de comprar como escravos os batizados. Este uso impede a conversão de muitos." Assim resumimos as anotações do historiador Eduardo A..Muaca em "Breve História da Evangelização de Angola.1491-1991" (Lisboa, Secr. Nac. das Comemorações dos 5 Séculos,1991.p.35). Mas a rainha foi derrotada à frente de suas tropas por Fernão de Souza, e suas duas irmãs, as princesas Cambe e Funge, foram levadas para Luanda e batizadas com os nomes de Bárbara e Engrácia. Em 1641, os holandeses saíram do norte do Brasil e ocuparam Luanda. Ginga aliou-se a eles contra os portugueses. Mas estes tornaram a derrotá-la em 1647, sempre com armas superiores, comandados por Gaspar Borges de Madureira. Em 1648, Salvador Correa de Sá retomou Luanda dos holandeses, com uma armada saída do Rio de Janeiro.

A rainha Ginga viveu os seus últimos anos em Angola, morrendo em 17 de dezembro de 1663, quando teria cerca de 81 anos. Foi sepultada na capela de Santana por ela mesma (Dona Ana) construída, e com um hábito velho de capuchinho, relíquia de Gaeta. Os portugueses anexaram a partir daí os reinos de Ginga e Mutumba (ou Matamba) à Angola. A memória da rainha guerreira, no entanto, acompanhou os negros levados como escravos para o Brasil. (KI-ZERBO, Joseph. "História da África Negra". Lisboa, Publ. Europa-América. pp. 426-427-Trad. de "Histoire de l’Afrique Noire." Paris, 1972; NUNES, Jerônimo. Pe. "Santa Ana e Rainha Jinga". In: "Cruzada Missionária". Ano LXV. Abril/1997. p. 4)

Luanda tornou-se o maior porto negreiro da África, a partir do qual mais de 30 mil escravos saíam anualmente, principalmente para o Brasil. No séc. XVII, registramos a existência de uma igreja de "Nossa Senhora do Rosário dos Pretos", em Luanda e outras igrejas de Nossa Senhora do Rosário, em Cambambe e em Pungo Andongo. (Informações de: MUACA, Eduardo A.. "Breve História da Evangelização de Angola.1491-1991", Lisboa, Secr. Nac. das Comemorações dos 5 Séculos, 1991. p. 39.) – Em "O Livro das Velhas Figuras" (Natal, Instituto Histórico e Geogr. do Rio Grande do Norte, 1977. pp. 9-11), Luis da Câmara Cascudo defende a inclusão da rainha Ginga na História, como a última rainha autêntica, combatendo portugueses e holandeses e ficando com seu povo contra os chefes pro-portugueses, proprietários de latifúndios e exploradores da fome negra. - O autor angolano Manuel P. Pacavira escreveu sobre a Rainha Ginga o romance "Nzinga Mbandi". (2ª Ed. Lisboa, Edições 70, 1979)

1639 – No Rio de Janeiro, fundação da Irmandade de N.Sra.do Rosário dos Homens Pretos, na igreja de S.Sebastião.
Na mesma época, e na mesma igreja, havia uma confraria de S.Benedito também fundada por homens pretos, livres e escravos. Em 1669, efetuou-se a união de ambas numa só irmandade. (COSTA, Joaquim José da. "Breve Notícia da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedicto dos Homens Pretos do Rio-Capital do Império do Brasil." Rio de Janeiro, Typogr. Polytechnica, 1886. - No Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.)
1650-1749 – Em Porto(Portugal), Irmandades do Rosário dos Homens Pretos, com reinado.
No Concelho do Porto, existiram confrarias de Nossa do Rosário dos Pretos ou dos escravos, com reinado e danças. A igreja do Convento de São Francisco (c.1698) possuia uma irmandade dos escravos chamada "de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito". (RODRIGUES, Maria Manuela Martins."Confrarias da Cidade do Porto." In: "Congresso Internacional de História: Missionação Portuguesa e Encontro de Culturas. Actas" (Vol.I. Braga,UCP/Com.Nac.para as Comemorações dos Descobrimentos Port./Fund.Evangelização e Culturas,1993. p. 382ss.)

1662 – Uma Irmandade do Rosário, em Moçambique.
Registra-se um "Compromisso Dos Irmãos da Confraria Da Virgem do Rozario, sita no Convento do Patriarcha S. Domingos desta Cidade de Moçambique. Anno de 1662". (GARCIA, Antônio.SJ.. "História de Moçambique Cristão". Vol.I-II.Braga, Livraria Cruz,1972.pp.440-441) O autor não menciona se os irmãos são portugueses ou africanos.

Grande parte dos negros pertencentes às irmandades oitocentistas era proveniente de três nações: o Congo, Angola e a Costa da Mina, que também pertenciam a uma mesma cultura, a bantu. Como o primeiro contato dos portugueses com a África foi através do Reino do Congo, eles passaram a ver tudo em função desse reino, como se as demais nações fossem apenas sua continuidade territorial e até de línguas e culturas.

1674 – Em Recife(PE), reis de Congo.
Câmara Cascudo registra uma coroação dos reis de Congo no ano de 1674, no Recife (PE). ("Arquivos". 1o. e 2o., 55-56, Diretoria de Documentação e Cultura. Prefeitura do Recife, 1949-1950. Apud:CASCUDO, Luís da Câmara. "Dicionário do Folclore Brasileiro". Brasília, Inst. Nac. do Livro, 1972. p. 280).

Nos manuscritos da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de Santo Antônio do Recife de 1675, 21 anos depois da expulsão dos holandeses das terras pernambucanas, observamos que o reinado deveria ter como soberano um membro da nação Angola, ou seja, um bantu.(Cord, Marcelo Mac 2003). Essa medida foi tomada devido à aliança entre o Reino do Congo (na África) e a Holanda, considerada ofensiva à Coroa Portuguesa, após a retomada de Pernambuco pelos lusitanos. Algum tempo depois deste fato, o título “Rei do Congo”, voltou a ser concedido normalmente, sendo reconhecido novamente em sua plenitude, no transcorrer do séc, XVIII. A partir de então, não podemos afirmar qualquer preponderância de qualquer grupo étnico no reinado.

1682 – Em Belém(PA), fundação da Irmandade de N.Sra.do Rosário dos Homens Pretos.

1686 - Em Salvador(BA).
Fundou-se a Irmandade de N.S.do Rosário dos Homens Pretos, na igreja de N. S. da Conceição da Praia.

1697 – Em Lisboa é publicado um livro oferecido à Virgem do Rosário, Senhora dos Pretos.
Trata-se da: "Arte da Língua de Angola, oferecida à Virgem do Rosário, May, & Senhora dos mesmos pretos. Por P. Pedro Dias da Companhia de Jesus." ( Lisboa, IBL, Res.239 P/F No. 1354.)

Nas Minas Gerais do ciclo do ouro, as primeiras Irmandades a serem criadas nas Vilas, as mais antigas, são as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que congregavam, inicialmente, os escravo e, com o passar do tempo, também os forros.

1708 - Em São João Del Rei(MG).
Fundação da Irmandade de N.Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1711 – Em São Paulo(SP).
Fundação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

1713 – Em Cachoeira do Campo(MG).
Fundação da Irmandade de N.Sra.do Rosário.

1713 – Em Sabará(MG).
Fundação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

1715 – Em Ouro Preto(MG).
Fundação da Irmandade de N.Sra.do Rosário dos Homens Pretos e a primeira a ser registrada, em 1756.

1728 – Em Serro(MG).
Fundação da Irmandade do Rosário.

1754 - Em Viamão(RS).
Fundação da Irmandade de N.Sra.do Rosário dos Homens Pretos.

1771 - Em Caicó(RN).
Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1773 - Em Mostardas(RS).
Fundação da Irmandade de N.Sra.do Rosário dos Homens Pretos.
Em meados do séc. XVIII, chega ao Brasil um escravo da tribo dos Kikuios (congo-angola) de nome Gangazumba Galanga congüemba Ibiala xana batizado com o nome de Francisco da Natividade (1747), indo trabalhar na Mina da Encardideira, atual Paróquia de Nossa senhora da Conceição (Ouro Preto). Coube a ele, sob a alcunha de Chico-rei erguer a Igreja de Santa Efigênia e Nossa senhora do Rosário do Alto da cruz e realizar as festas mais suntuosas de reinado: 1773 (ou 1747?), recebeu destaque a festa do reinado do Rosário com Chico Rei da Angola, no dia dos Santos Reis, seis de janeiro de 1773, em Vila Rica. Desde então, nas Minas gerais, o nome de Chico-Rei se eternizou como o nome de um negro forro que trabalhou tanto para a libertação de seus irmãos quanto pela tradição do reinado de nossa Senhora.

1774 - Em Rio Pardo(RS).
Fundou-se a Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1782 – Em Paracatu(MG).
Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.
No fim do séc. XVIII e início do séc. XIX, as “hierarquias do Rei do Congo” foram proibidas oficialmente pelas autoridades públicas e retiradas dos compromissos fraternais. As Irmandades de Nossa Senhora do Rosário foram, então, divididas em dois grupos: a “mesa administrativa”, que ficou no interior da Igreja, e os “Irmãos do Rosário”, que foram para a rua.

O Terço dos Henriques

Os diversos grupos étnicos estabeleceram “lealdades primárias”, mais em função de afinidades culturais muito profundas que as étnicas propriamente ditas. Cada grupo possuía um governador ou comando subordinado ao Rei do Congo. O “reinado” aglutinou, por causa de sua diversidade de comando, desde o século XVIII, sob a ascendência do Rei do Congo, uma série de outros grupos étnicos que não faziam parte da cultura bantu, ocorrendo, por vezes, rivalidades entre eles.

Os reinados se reorganizaram como uma pequena tropa militar e cada um dos grupos se sentiu livre para assumir suas origens, adotando o nome de sua nação ou terra natal. Essa caracterização militar, além da disciplina, pode ser uma referência ao tradicional Terço dos Henriques, outra importante instância de poder dos homens pretos consorciada ao reinado e às irmandades.

O Terço dos Henriques era uma organização militar, criada após a expulsão dos holandeses de Pernambuco, no séc. XVII, em homenagem à participação dos negros nesta luta, sob o comando de Henrique Dias. Desde a sua criação, o Terço dos Henriques manteve uma forte proximidade com as Irmandades do Rosário em Pernambuco, embora sempre tenha sido uma instituição autônoma. O terço acabou por ter uma subordinação indireta às “hierarquias do Rei do Congo”, na medida em que alguns de seus oficiais eram confrades nas irmandades dos homens pretos.

Originou-se, daí, as guardas, ternos (possivelmente é uma corruptela da palavra terço) e cortes do Congo – Angola, do Moçambique e os Caboclos. O Rei do Congo torna-se então a autoridade máxima, numa referência ao reino do Congo, que, por sua vez, era a referência dos portugueses no continente africano. É também uma alusão ao primeiro rei cristão do Congo, o Mani-Congo Kuwu e à primeira rainha cristã de Angola, Nzinga Banti.

Registra-se que os escravos recolhiam as sementes de um capim cujas contas são grandes para confeccionar terços e rezar. Por esta razão, tais sementes foram chamadas “lágrimas de Nossa Senhora”.

Ao fim do período colonial, as irmandades do Rosário passaram então a ser constituídas pelos “homens pretos”, ou seja, passaram a vincular-se aos escravos que buscavam na imagem e nas orações o alívio para os sofrimentos.
(continua...)

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Respostas a este tópico

é muita história meu amigo, e tudo coincidiu praticamente com o inicio do culto a Nossa Senhora, salvo engano, que passou a ser venerada pela Igreja aproximadamente neste período tb não foi???

Forte Abraço,

Pierre
Não Pierre, a devoção a Virgem tem seu florecimento na Idade média clássica por volta do sec. X e XI. Já no caso do rosario, por volta de 1206 com os dominicanos. São Domingos de Gusmão, inspirado pela Virgem Maria, deu ao rosário sua forma atual. Isto pode ser comprovado em episódios revelados em sua iconografia. Já a oração do Santo Rosário surge aproximadamente no ano 800 dentro dos mosteiros, como "Saltério" dos leigos. Isto porque que os monges rezavam os salmos (150), os leigos, não sabiam ler, aprenderam a rezar 150 Pai-Nossos.
Com o passar do tempo, se formaram outros três saltérios com 150 Ave Marias, 150 louvores em honra a Jesus e 150 louvores em honra a Maria.
(continuação)
As irmandades eram organizações leigas entre outros tipos de organizações não-clérigas que existiam dentro da igreja como podemos ver abaixo:

CARACTERÍSTICAS DAS SOCIEDADES RELIGIOSAS LEIGAS

Pia União = Associação de fieis que tenham sido erectas para exercer alguma obra de piedade ou caridade. Não houve Pia União no Brasil colonial.

Irmandade = Mesmo objetivo da Pia União, porém constituída em organismo, ou seja, com organização.

Confraria = Irmandade que também tenha sido erecta para o incremento da prática do culto público.

Arquiconfraria = Confraria com poder de agregação, transferindo às afiliadas os privilégios e indulgências da "confraria-mãe", embora a agregante não tenha nenhum direito sobre as agregadas.

Ordem Terceira = Associação Pia que, ao contrário da Confraria, onde o objetivo é o incremento do culto público, preocupa-se somente com a perfeição da vida cristã de seus membros, que seguem as regras da correspondente Ordem Primeira, adaptadas para os leigos, chamados de "Irmãos Terceiros".

FONTE: BOSCHI, Caio Cesar, Os Leigos e o Poder: (Irmandades Leigas e Política Colonizadora em Minas Gerais), Ed. Ática, São Paulo, SP, 1986

As Irmandades tiveram um papel de suma importância na formação da cultura e da nossa sociedade o que ainda é quase desconhecido. Só em Minas Gerais, do ciclo do ouro, eram centenas delas, ilustres desconhecidas, com raras exceções. Havia Irmandades em todas as Vilas, Arraiais e até mesmo em simples Povoados e absorviam uma parcela considerável do tempo e da vida de toda a população, senhores ou escravos.
Nos seus quadros só se admitiam pessoas pardas. A partir desse fato, ocorreu uma associação de idéias, em Minas Gerais, entre Arquiconfraria e pardos , mas que não pode ser estendida para outras regiões do Brasil.

As Irmandades Religiosas podem ser classificadas, de acordo com a natureza da autoridade que a fundou ou permitiu: "eclesiásticas" ou "seculares",

CATEGORIAS DAS SOCIEDADES RELIGIOSAS LEIGAS

Eclesiástica (Religiosa) = fundada por autoridade eclesiástica ou com o consentimento do prelado.

Secular (Civil) = fundada por leigos subordinada à autoridade civil e apenas visitada pelo eclesiástico.

FONTE: BOSCHI, Caio Cesar, Os Leigos e o Poder: (Irmandades Leigas e Política Colonizadora em Minas Gerais), Ed. Ática, São Paulo, SP, 1986

Dependendo do grau de obediência aos estatutos e demais regras da "Irmandade", essa filiação era classificada em "de devoção" ou "de obrigação".

Em geral um irmão (ou irmã) por devoção, significava que não estava sujeito à regra da Irmandade ao passo que o irmão (ou irmã) de obrigação estava submetido à regra da Irmandade, segundo seus Estatutos e demais normas.

Ser irmão por devoção era um primeiro estágio em que o filiado se habituava com a vida da Irmandade e adquiria conhecimento de sua regra e posteriormente, por sua vontade livre, podia optar por obedecer aos seus estatutos e normas quando se lavrava um termo de compromisso, ou de admissão, ou de matrícula.

Geralmente nas Minas Gerais no período do ciclo do ouro, as Irmandades que inicialmente se estabeleceram são as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos congregando inicialmente os escravos e, a posteriori, também os forros e também seus descendentes, crioulos. Uma pessoa filiada a uma "Irmandade" era chamada de "irmão" ou de "irmã".

Na Capitania de Minas Gerais do século XVIII, das centenas de Irmandades Religiosas criadas, os historiadores mais antigos registraram apenas uma parte muito pequena delas.

Mariana
Ordem 3ª de N. Sra. do Carmo (fundada: 1760) = Formação desconhecida
Ordem 3ª de São Francisco (fundada: 1768/70) = Formação desconhecida
Ordem 3ª de São Francisco (confirmada: 1784) = HOMENS PARDOS
N. Sra. do Rosário = PRETOS
N. Sra. das Mercês (aprovada: 1787) = PRETOS/CRIOULOS
Sant’ Anna (???) = Formação desconhecida
São Gonçalo (???) = Formação desconhecida

Ouro Preto
Ordem 3ª de N. Sra. do Carmo = Formação desconhecida
Ordem 3ª de São Francisco de Assis = Formação desconhecida
Ordem 3ª de São Francisco de Paula = PARDOS
N. Sra. do Rosário de Oiro Preto / Alto da Cruz (fundada: 1711) = PRETOS
N. Sra. do Rosário, do Padre Faria = BRANCOS
N. Sra. das Mercês = CRIOULOS
São José, do Oiro Preto = HOMENS PARDOS
N. Sra. da Boa Morte, de Antônio Dias = PARDOS
N. Sra. da Conceição (fundada: 1712) = PARDOS

Sabará
Ordem 3ª de N. Sra. do Carmo = Formação desconhecida
Ordem 3ª de São Francisco = Formação desconhecida
N. Sra. do Rosário = PRETOS
N. Sra. das Mercês = PRETOS
N. Sra. dos Anjos = PARDOS

São João Del Rey
Ordem 3ª de N. Sra. do Carmo = Formação desconhecida
Ordem 3ª São Francisco = Formação desconhecida

Barbacena
N. Sra. da Boa Morte (?) = PARDOS

Tamanduá
Ordem 3ª São Francisco de Paula (Arquiconfraria) (fundada: 24/mai/1805) = Formação desconhecida

Vila do Príncipe
Ordem 3ª de N. S. Carmo (criada: 20/mai/1761) = Formação desconhecida

Arraial do Tejuco
Santíssimo Sacramento = Formação desconhecida
Ordem 3ª de N. Sra. do Carmo (criada: 1755) = Formação desconhecida
Ordem 3ª de São Francisco (criada: 1760) = Formação desconhecida
N. Sra. do Rosário = PRETOS DA COSTA DA ÁFRICA
N. Sra. das Mercês = PRETOS CRIOULOS
N. Sra. do Amparo = PARDOS
N. Sr. dos Passos = Formação desconhecida

Minas Novas
Ordem 3ª de São Francisco = Formação desconhecida
N. Sra. do Rosário = PRETOS
N. Sra. do Amparo = HOMENS PARDOS

Reinado do Rosário em Betim (Fonte: Departamento de Patrimonio Histórico - FUNARBE - 2008)
Em Betim, a devoção a Nossa Senhora do Rosário pode remontar à própria origem da cidade datada do primeiro quartil do século XVIII. Por volta da primeira metade do século XVIII que os primeiros grupos de famílias, seduzidas pela visão panorâmica da região, pela amenidade do clima e pelas esplêndidas águas que banhavam o solo fértil e verdejante, instalaram-se no local. Em conseqüência disto, teria se formado um povoado bastante populoso e já carente de uma padroeira. No ano de 1754, o povoado passou a ser conhecido como Arraial da Capela Nova de Betim e teria sido então, por iniciativa de um dos primeiros proprietários de terras da região que fora erigida a “Capela Nova do Betim” em devoção a Nossa Senhora do Monte do Carmo
Através de uma provisão episcopal de 9 de novembro de 1754, encontrada no Arquivo Nacional, é erigida uma Capela na Bandeirinha do Rio Paraopeba (Fonseca: 1975, 152), que servirá ao culto do catolicismo na cidade que se forma.

Em relação à religiosidade negra, a primeira referência da existência da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Arraial de Betim data de 1814, em documento encontrado no Arquivo Nacional, onde solicita-se à sua Alteza Real provisão para ereção de uma Capela para Nossa Senhora do Rosário, dizendo ainda o documento que se desejava prosseguir na arrecadação de fundos e donativos para a sua construção

“Dizem os homens pretos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Arraial do Beti, na Freguezia de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral d’El-Rei, Bispado de Mariana, em Minas Gerais, que eles querem continuar na ereção de sua Capela dedicada à mesma Senhora do Rosário, e porque o não podem fazer sem Licença de Vossa Alteza Real. Suplicam a V. A. R. Se digne de mandar-lhes passar sua Provisão de Ereção, na forma do estilo”. (A.N. – Caixa 284 – Pacotilha 2 – Documento nº 89)


À margem: “P.P. de ereção REM. 28 de setembro de 1814. E assinatura de Antônio José da Silva, Procurador da Irmandade.
Manoel Antônio Carvalho, falecido em 10 de outubro de 1828, deixa em seu testamento uma esmola de trinta mil réis, para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário que se pretende fazer.
Eu Manoel Antônio de Carvalho, estando em meu perfeito juízo [...] deixo de esmola para a Igreja da Senhora do Rosário da Capela Nova do Betim que se pretende fazer, trinta mil reis.


Em 23 de setembro de 1851, através da Lei no 522, sancionada pelo Dr. José Ricardo de Sá Rego, então Presidente da Província, o Curato da Capela Nova de Betim é elevado à categoria de paróquia e passa a pertencer ao município de Sabará

“Fica elevado a Paróquia o Curato da Capela Nova do Betim, desmembrado da Paróquia do Curral d’El-rei, compreendendo a nova Paróquia o Distrito das Bicas, desmembrado da Paróquia de Matheus Leme”.

Em 1856, o Frei Francisco Coriolano Otrante, missionário capuchinho, inicia, entre os bons fiéis, uma subscrição para a construção da Matriz (Fonseca: 1975, 158).

Em 1861, devido a dificuldades para a continuidade das obras de construção da Matriz, o Padre Casimiro Moreira Barbosa recomenda ao Bispo de Mariana, Dom Antônio Ferreira Viçoso, em visita pastoral à paróquia, utilizar o dinheiro da Irmandade Nossa Senhora do Rosário, sob a alegação de que a mesma estava em decadência por falta dos devotos pretinhos e, também, dadas às dificuldades de se levar adiante a construção da Capela do Rosário, que, neste momento, já teria perdido grande madeiramento, carretos e despesas, sendo atendido em despacho favorável.

A esta época, havia uma imagem de Nossa Senhora do Rosário que era venerada pelos pretos, mas que se achava entronizada na matriz de Nossa Senhora do Carmo, Igreja dos brancos, dos senhores, constituindo empecilho às suas preces e oferendas, segundo Geraldo Fonseca (Fonseca: 1975, 162).

A partir de 1861 cresceram em número os congadeiros que mais vezes passaram a homenagear suas protetoras. Em Maio dançam em homenagem à Princesa Isabel. Em agosto e setembro em honra á Senhora do Rosário.

Em 1894, inicia-se a construção da Capela de Nossa Senhora do Rosário, através de despesa realizada pelo Vigário Domingos Cândido da Silveira, na qualidade de Presidente da Mesa de Nossa Senhora do Rosário (Fonseca: 1975, 164).

Em fevereiro de 1897, a capela recebia a vidraçaria e nela já se celebravam os atos religiosos (Fonseca: 1975, 164).

Desde os tempos das capitanias, dezenas de capelas abrigavam a imagem de Nossa Senhora do Rosário e seus devotos, cidadãos de cor. As raízes dos congadeiros de Betim estão nas famílias de Sr. Joaquim Nicolau, que deram continuidade, formando a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora Aparecida.

Os congadeiros da atualidade e pertencentes à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário contam que, na construção da Igreja, trabalharam Joaquim Nicolau e o seu pai.

Joaquim Nicolau e João Belarmino trabalharam na construção da Igreja carregando pedra. Hoje, depois de reformada, ela está como era antigamente. Deste jeitinho mesmo.
Cap. Raimundinho da Guarda de Congo da Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Betim

Joaquim Nicolau é o ancestral de referência para a história recente do Congado da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Betim. Quando solteiro, fundou o reinado em Vianópolis. Era o seu Capitão Mor quando mudou para Betim onde levantou, em 1954, o reinado que esteve parado quarenta e cinco anos devido à morte do seu antigo capitão (Mendonça: 1996, 9).

Atualmente, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Betim é composta de dez guardas do congado, sendo uma tradição da cidade, com a qual sua história se mistura. Para os congadeiros, o Congado deve ser encarado como religião e não como folclore sendo este sentimento reforçado pelos diferentes ritos que cercam a manifestação religiosa e que são seguidos de maneira rigorosa pelos membros da Irmandade. Cada guarda tem um estilo, mas todos estão relacionados com as tradições negras conservadas pela memória coletiva dos grupos afro-brasileiros (Modesto & Mendonça: 1995, 18).

A Capela de Nossa Senhora do Rosário, a mais antiga de Betim, é ainda o local onde anualmente acontece a Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário entre os meses de agosto a outubro, sendo um referencial para uma parte do segmento negro e não negro de Betim, uma vez que o culto é aberto a todas as etnias.

Houve uma época em que esteve ameaçada de ser destruída, mas graças a uma mobilização da comunidade, encabeçada pelos congadeiros, teve a sua demolição impedida, o que, infelizmente, não aconteceu com a matriz de Nossa Senhora do Carmo (Modesto & Mendonça: 1995, 9).

Segundo levantamento do acervo cultural de Minas Gerais, realizado pelo IEPHA em 1984, temos a seguinte descrição da Igreja de Nossa Senhora do Rosário:

Situa-se em uma colina, em praça com cruzeiro. O partido é retangular com nave central, de pé-direito mais alto, naves laterais e sacristia posterior que se trata de acréscimo recente em alvenaria de tijolo. Em estrutura autônoma de madeira e vedação em adobe recebe cobertura em telhas curvas com beirais em cachorrada. O frontispício mostra três portais sendo o central encimado por duas janelas com balaustrada interna, interessante óculo e cruzeiro de madeira encimando a cumeeira. Os vãos possuem enquadramento de madeira, folhas em calha ou em caixilhos de vidro. A sineira lateral, sem o sino, apresenta madeiraime em estado precário. A nave principal apresenta forro alteado em tabuado liso. Para acesso ao altar existe supedâneo em madeira limitado por cancelos laterais em balaustrada de madeira torneada. As naves laterais possuem piso em tabuado corrido, não são forradas e apresentam janelas com verga alteadas. A recente sacristia mostra piso em cimento natado com corante verde, dois basculantes e não recebe forro.

As Comemorações do dia de Nossa Senhora do Rosário em Betim inicia-se no mês de agosto. No início do mês acontece, o levantamento da Bandeira de Aviso. Por volta do dia 21 de agosto, a novena com reza de terço em louvor de Nossa Senhora do Rosário.

Por volta de 28 de agosto, o levantamento das Bandeiras de São Benedito, de Santa Efigênia, de São Sebastião, de Nossa Senhora do Rosário, de São João Bosco e de Nossa Senhora da Aparecida. Em torno do dia 30 de agosto, o cumprimento de promessas, coroação de Reis, Rainhas, Barões, Baronesas e devotos de Nossa Senhora de Rosário.

A Irmandade é composta por 10 grupos de congadeiros, sendo a Guarda de Moçambique da Bandeira de Santa Inês, Capitão “Seu” Mário (Falecido); Guarda de Moçambique da Bandeira de Nossa Senhora do Rosário, Capitão “Seu” Dalmo; Guarda de Moçambique da Bandeira de Nossa Senhora do Rosário, Capitã “Dona Nenem”; Guarda de Congo da Bandeira de Nossa Senhora do Rosário, Capitão “Seu Raimundim”; Guarda de Marujos da Bandeira de São João Bosco, Capitã Dna. Zélia; Guarda de Moçambique da Bandeira de Santa Ifigênia, Capitão “Zé” Lúcio; Guarda de Moçambique da Bandeira do Divino Espírito Santo, Capitão Ednilton; Guarda de Catupê da Bandeira de Santa Inês, Capitã “Tita”; Guarda de Moçambique da Bandeira de Nossa Senhora do Desterro, Capitão Christian; Guarda de Congo da Bandeira de , Capitã Dna. Euli ; Guarda de Moçambique da Bandeira de Santo Antônio de Pádua, Capitão “Bimbo”

A disciplina e a obediência aos rituais são rígidas. Os participantes têm que se vestirem a caráter, respeitarem as hierarquias e serem fervorosos.

Somente no ano de 1894, concretizou-se o sonho dos devotos da Senhora do Rosário em ter um lugar para a guarda permanente da imagem da Santa. Muitos não puderam contemplar a tamanha elegância que, hoje, abriga no coração da cidade, a Capela do Rosário no bairro Angola.

Atualmente, a participação do branco já é permitida, mas, no passado, somente os negros podiam fazer parte dos rituais e havia uma abstinência sexual por parte de todo os componentes da Irmandade. Vem sendo desenvolvido um trabalho de conscientização do negro, visando buscar suas origens, costumes, hábitos, valores culturais, e a sua cidadania, através de cursos, palestras e eventos religiosos e culturais.

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